“A presença massiva de mulheres na bolsa de valores será a próxima revolução”, afirma Nathalia Arcuri

Elas aderem cada vez mais ao universo dos investimentos e procuram se preparar para fazer a diferença em tempos difíceis.

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Nathalia Arcuri, fundadora do canal de finanças “Me Poupe”. (Foto: Divulgação)

Em janeiro deste ano, o número de contas listadas na B3 criadas por mulheres ultrapassou a marca de 460 mil. Só de 2018 para 2019, o total de contas cadastradas passou de 179 mil para 388 mil, o que representa um crescimento de 117%. No entanto, a desproporção em relação à participação masculina mostra que ainda há um longo percurso pela frente. Na própria B3, o público feminino é de apenas 23%, considerando janeiro como mês de referência. Com a atual crise econômica e volatilidade do mercado de capitais e outros investimentos, a capacitação será a palavra de ordem nesse momento para que as mulheres continuem sua evolução como investidoras potenciais.

Há cerca de três anos, as empresárias e investidoras Regina Giacomelli Politi, Simone Schapira Wajman e Marilene Bertoni Nigro passaram a organizar encontros informais frequentes com o objetivo de ajudarem umas às outras a buscar conhecimento e trocar experiências sobre economia e finanças. Foi assim que surgiu a ideia de criar o GIMI NETWORK – Grupo Independente de Mulheres Investidoras, uma rede de educação financeira e experiências voltada ao público feminino lançada em março deste ano. Devido à proporção alcançada pelos encontros, as três sócias decidiram profissionalizar o modelo e convidaram a economista Luciane Ribeiro para integrar a sociedade.

“O objetivo do GIMI NETWORK é reunir mulheres de todas as idades e níveis de conhecimento que estejam em busca de educação financeira, independente da finalidade - cuidar de suas finanças pessoais e familiares. “Nosso propósito é preparar as mulheres a tomarem suas próprias decisões nos seus investimentos” explica Regina Politi.

Começar para mudar

A plataforma GIMI contempla duas vertentes: a educacional, neste momento com cursos online de educação financeira por conta do isolamento social e que, futuramente, serão apenas presenciais, e a de experiências e networking, que funcionará como um clube para associadas. “Poder usar nossa experiência de vida aliada à educação para promover a inclusão de mulheres no universo financeiro é gratificante”, dizem as sócias Simone, Marilene e Luciane.

O próximo passo do GIMI NETWORK é desenvolver uma plataforma de cursos gratuitos voltados para mulheres e empreendedoras de baixa renda. “O compartilhamento de conhecimento se fortalece neste momento de crise e as mulheres investidoras estão cada vez mais bem posicionadas para ampliar seus conhecimentos, usando todas as ferramentas tecnológicas e as redes sociais neste momento.

Para Rebeca Nevares, CEO e sócia-fundadora da Ella's Investimentos, a mudança do papel da mulher no mundo dos investimentos de fato começou, mas ainda está numa fase de despertar. “Antes, mesmo quando tínhamos contas cadastradas com CPF de mulheres, na verdade, em sua maioria, eram contas gerenciadas por homens, como o cônjuge ou filho”, explica.

Análise de perfil

Entre os investimentos mais conservadores, como o Tesouro Direto e as opções de Renda Fixa, a presença feminina também está mais forte em relação aos anos anteriores. No Tesouro Direto, em dezembro de 2019, elas representavam 31,9% do total de investidores. Contudo, como avalia a influenciadora e educadora financeira Carol Sandler, ainda é cedo para afirmar que a mulher tem um perfil unicamente conservador. “Há mais aversão ao risco ou é a falta de conhecimento e confiança que faz com que elas optem por esse tipo de aplicação?”, provoca a especialista, que é fundadora da plataforma online Finanças Femininas e da TV Carol Sandler.

Autora do livro “Detox das Compras” e coautora de “Finanças Femininas – Como organizar suas contas, aprender a investir e realizar seus sonhos”, Carol acredita que o perfil conservador que se atribui à mulher não é fidedigno, tanto que mulheres com o mesmo nível de conhecimento que o dos homens têm aplicações semelhantes. “Só será possível descontruir esse mito na medida em que homens e mulheres tenham o conhecimento e o acesso equiparados”, resume.

Informação e formação

A julgar pelo surgimento das plataformas voltadas para as mulheres, elas já estão nessa busca por plena autonomia na área de investimentos. “Nos eventos que fizemos, notamos que as mulheres querem mais informações técnicas”, conta a CEO da Ella's, com base na sua experiência frente ao primeiro escritório de investimentos do Brasil, com foco em mulheres e diversidade e também credenciado à XP Investimentos. “A mulher está entendendo que tem outros tipos de investimentos e já começa a diversificar com fundos imobiliários, fundos de ações e até multi fundos, que contempla fundos da Bolsa, mas a falta de informação ainda é um empecilho”, analisa Rebeca.

Para Nathalia Arcuri, fundadora do maior canal de finanças do YouTube e primeira plataforma de entretenimento financeiro do mundo, o Me Poupe”, é notável que as mulheres estão mais seguras de que são capazes de cuidar do próprio dinheiro e, na medida em que vão conhecendo mais os investimentos, elas vão se permitindo ser mais arrojadas. “O conhecimento abre caminhos”, destaca ela, que tem em sua plataforma 10 mil alunos, dos quais 70% são mulheres.

Na plataforma de Nathalia, a linguagem é universal. Mesmo assim, 65% do público é feminino. “Isso prova que não precisamos adotar um discurso baseado em gênero. Mulheres querem ser livres e é isso que eu quero proporcionar para elas”, afirma ela, que vê o momento como uma era de mudança cultural e de mentalidade.

“A mulher está mais dona do próprio dinheiro e isso já é motivo de comemoração. Tivemos que evoluir muito rápido e a presença massiva de mulheres na bolsa de valores será a próxima revolução. Muitas das seguidoras do Me Poupe! relatam que terceirizavam os investimentos aos pais, maridos e afins e nem pensavam que essa era uma tarefa que cabia a elas”.

Para Rebeca Nevares, o direcionamento da comunicação é justamente um recurso para esse período de transição e transformação, que serve para expor as diferenças.

“A ideia do movimento é mostrar que as coisas estão erradas da forma que estão. Às vezes tem que apartar, para incluir. Segregar para agregar”, pondera ela, destacando a importância do tema para a mudança do espaço e do papel da mulher na sociedade como um todo. “Sem dinheiro, não há poder de decisão. Dinheiro é liberdade”.

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Rebeca Nevares, CEO e sócia-fundadora da Ella’s Investimentos. (Foto: Divulgação)

Benefícios compostos

O impacto da mulher como investidora tem efeito cascata. Em sua prática, Carol Sandler vê a mulher como multiplicadora de informação, conhecimento e comportamentos. “Ela leva o que aprende para a família e amigos. Tem muito mais do compartilhamento que o homem, que já sofre uma certa pressão de que ele tem de saber”.

Rebeca também observa diferença em trazer a voz da mulher para o planejamento. “É muito diferente porque elas desejam mudar algo, ajudar a comunidade, e se preocupam até com a origem dos ativos. Elas querem ganhar dinheiro, mas não querem passar por cima de ninguém. São agentes de transformação”.

Comunicação dirigida

O perfil dos clientes da financeira Easynvest, que desde 2017 passou a falar diretamente com o público feminino de diferentes idades por meio do movimento “Nós, mulheres investidoras”, comprova essa diversificação gradativa. Com 36% de mulheres em sua base de clientes, 80% se enquadram no perfil moderado, 15,36% são experientes e apenas 2,9% são conservadoras.

Para atingir seus objetivos, o movimento criado na Easynvest busca envolver questões como identificação de potenciais limitantes, histórico familiar e autoconhecimento, conectando com a questão da liberdade financeira, por meio de uma série de conteúdos direcionados, como podcasts, lives, vídeos, blog, workshops, uma comunidade no Facebook com 3 mil mulheres, que têm um encontro semanal com um especialista, um workshop presencial de quatro meses, cuja primeira edição foi realizada ano passado, além de rodas de conversa em parceria com o projeto de educação financeira e economia comportamental “Invista como uma Garota”, incluindo a presença de colaboradoras, que representam 80% da equipe.

(Fonte: Revista LIDE)